Às margens da BR-116/RS, entre Guaíba e Pelotas, encontram-se importantes exemplares da flora e fauna nativas. Com o objetivo de conservar essas espécies – algumas delas ameaçadas de extinção –, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) adota medidas de mitigação e preservação orientadas pelas diretrizes do Plano Básico Ambiental (PBA) e do órgão ambiental responsável pelo licenciamento das obras de duplicação da rodovia, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).
Um importante exemplo do cuidado ambiental realizado no empreendimento é o caso do Gymnolebias jaegari, pertencente à família dos rivulídeos, que são mais conhecidos como peixes-anuais ou peixes-das-nuvens. Nos estudos realizados por especialistas, essa espécie não havia sido encontrada em qualquer outro lugar do mundo, a não ser em Pelotas; sendo uma área úmida temporária nas proximidades do km 510 da rodovia um dos locais no município.
Devido à necessidade de proteção desses exemplares ameaçados de extinção, de 2013 a 2015, ocorreram diversas tratativas entre DNIT, Ibama e as empresas contratadas para a gestão ambiental do empreendimento e para supervisão das obras. As definições culminaram em uma alteração de projeto que, com a remoção do canteiro central naquele ponto, eliminaram a influência de escavações e aterros.
Depois disso, trimestralmente, a área passou a ser acompanhada por meio do Programa de Monitoramento de Fauna e Bioindicadores, permitindo verificar que uma pequena parte da área úmida, em que se encontravam ovos de Gymnolebias jaegari, havia migrado para o traçado em duplicação da rodovia.
Como mais uma providência para reduzir possíveis impactos à espécie, o DNIT submeteu uma proposta ao Ibama para translocação daquele substrato. Com a aprovação pelo órgão ambiental, nos dias 18 e 19 deste mês, foi realizado o remanejamento do charco temporário. O serviço foi executado pela construtora responsável pelo trecho rodoviário em duplicação, utilizando escavadeira hidráulica e caminhões-pipa. Toda a ação teve o suporte da autarquia, equipe de Gestão Ambiental do empreendimento, profissionais especialistas em rivulídeos e técnicos em topografia. A área permanecerá sendo monitorada.
Cabe destacar que o DNIT é pioneiro nessa técnica, que já foi aplicada com sucesso nas obras de duplicação da BR-116/392/RS, trecho Pelotas - Rio Grande, bem como em outros empreendimentos no Rio Grande do Sul.
Peixes-anuais
Os rivulídeos vivem por pouco tempo e dependem das chuvas para a eclosão de seus ovos. Boa parte das espécies é registrada em várzeas, banhados e charcos que se mantêm alagados entre seis e oito meses por ano. Nesse período, ocorre sua reprodução.
Com a seca da área, os adultos morrem. Mas os resistentes ovos desses animais permanecem aguardando até a chegada do período chuvoso seguinte, em um processo chamado de diapausa, quando um novo ciclo de vida é iniciado.
A translocação do espaço onde esses ovos se encontram, como foi realizada na BR-116/RS, permite a sobrevivência desses indivíduos.